Como precificar peças de crochê: a fórmula que eu uso na prática

Tem uma pergunta que aparece toda semana nas mensagens do meu Instagram, sempre com as mesmas palavras: “Carol, quanto eu cobro por isso?”

Vem foto de sousplat, de tapete, de jogo de banheiro. E vem quase sempre com uma frase colada: “porque eu não quero cobrar caro demais e espantar a cliente”.

Eu entendo, porque já passei por isso. Nos primeiros meses vendendo, eu olhava para uma peça que tinha levado quatro horas para ficar pronta e cobrava trinta reais. Achava que estava sendo justa. Estava, na verdade, pagando para trabalhar.

Vou te mostrar a conta que eu uso hoje, com números reais, e também onde essa conta falha — porque ela falha, e ninguém costuma contar essa parte.

Por que a maioria de nós cobra menos do que deveria

Antes da fórmula, vale entender de onde vem o desconforto.

O crochê é um trabalho que a gente aprende a fazer por prazer. Você começou fazendo para você, para a sua mãe, para presentear. Quando vira venda, o corpo continua achando que aquilo é uma atividade de descanso, e é difícil cobrar por descanso.

Some a isso o fato de que a cliente não vê as horas. Ela vê um sousplat pronto em cima da mesa. Não viu você desmanchar três carreiras porque errou a contagem, nem as duas noites depois do jantar com a agulha na mão.

E tem o comparativo injusto: ela compara o seu sousplat de crochê com um de plástico de loja de departamento. São produtos diferentes, com processos diferentes. Uma parte do trabalho de vender artesanato é justamente explicar essa diferença — e o seu preço é a primeira coisa que comunica isso.

Preço muito baixo não atrai cliente boa. Atrai cliente que vai pechinchar de novo na próxima.

A fórmula base

A conta que eu uso tem três partes:

Material + Hora trabalhada + Margem de lucro

Parece óbvio, mas cada uma dessas partes tem um jeito certo de calcular. É aí que a maioria erra.

1. O material se calcula por peso, não por rolo

Esse é o pulo do gato que mudou a minha precificação.

Não adianta pensar “usei mais ou menos meio cone”. Você precisa saber quanto o seu barbante custa por grama.

A conta é simples:

Preço do cone ÷ peso do cone = preço por grama

Exemplo: um cone de 1 kg que custou R$ 60,00.

R$ 60,00 ÷ 1000 g = R$ 0,06 por grama

Agora você precisa de uma balança de cozinha daquelas simples, digitais, que custam pouco e são a melhor ferramenta de precificação que existe. Pese a peça pronta.

Se o seu sousplat pesa 120 g:

120 g × R$ 0,06 = R$ 7,20 de material

Faça isso uma vez com cada barbante que você usa e anote num caderno. O preço por grama só muda quando o fio aumenta de preço.

Se a peça leva mais de um fio, barbante comum com fio metálico dourado na borda, por exemplo pese separado ou calcule por estimativa e some. Fio metálico costuma ser bem mais caro por grama, então vale a pena não ignorar.

2. A sua hora precisa ter um valor definido

Aqui está o erro mais comum: chutar a hora.

O valor da sua hora não sai do nada. Ele sai de quanto você quer ganhar por mês, dividido pelas horas que você realmente consegue produzir.

Quanto você quer ganhar por mês ÷ horas produtivas no mês = valor da sua hora

E atenção nessa segunda parte: horas produtivas não são 220 horas. Se você tem casa, filhos, encomendas para organizar, fotos para tirar, mensagens para responder e material para comprar, o tempo com a agulha na mão é bem menor.

Na minha experiência, entre 80 e 120 horas por mês é o realista para quem trabalha sozinha e faz tudo.

Exemplo: você quer tirar R$ 2.000 por mês e consegue crochetar 100 horas.

R$ 2.000 ÷ 100 = R$ 20,00 por hora

Anote esse número e use ele em todas as peças. Não mude conforme a cliente.

Para saber quanto tempo cada peça leva, você vai precisar cronometrar. Não precisa ser exato, anote o horário quando começar e quando parar, num caderno mesmo. Depois de três ou quatro peças do mesmo modelo, você já tem uma média confiável e não precisa mais cronometrar aquele modelo.

3. A margem de lucro

Depois de somar material e hora, você acrescenta uma porcentagem. Eu uso 30%.

Essa margem não é “dinheiro extra”. Ela é o que permite que o negócio exista: repor material antes de receber, absorver uma peça que deu errado, comprar uma agulha nova, ter fôlego num mês fraco.

Se você trabalha só com o custo, qualquer imprevisto sai do seu bolso.

Um exemplo completo

Vamos precificar um sousplat de crochê do começo ao fim.

ItemCálculoValor
Barbante120 g × R$ 0,06R$ 7,20
Hora trabalhada3 h × R$ 20,00R$ 60,00
SubtotalR$ 67,20
Margem (30%)R$ 67,20 × 0,30R$ 20,16
Preço finalR$ 87,36

Arredondando: R$ 89,00.

Repare uma coisa importante nessa tabela: o material representa menos de 10% do preço. O que você vende é tempo e técnica, não barbante. Quem precifica olhando só para o custo do fio nunca vai chegar a um preço justo.

Onde essa fórmula vaza

Agora a parte que quase ninguém conta, e que eu mesma demorei a entender.

A fórmula acima cobre o custo direto da peça. Mas o seu negócio tem custos que existem mesmo quando você não está com a agulha na mão.

Os custos que somem da conta

  • Embalagem, sacola, etiqueta, laço
  • Energia elétrica e internet
  • Agulhas, tesouras, marcadores que desgastam
  • Deslocamento para comprar material
  • Peças de amostra e refações
  • A sobra do cone que não virou peça nenhuma

Isoladamente cada um é pequeno. Juntos, comem sua margem inteira.

A solução não é calcular item por item em cada peça, é somar tudo o que você gasta por mês nessas coisas e dividir pelo número de peças que produz. Se você gasta R$ 150 por mês nesses custos e faz 15 peças, são R$ 10,00 por peça que precisam entrar na conta.

As taxas de venda

Se você vende com maquininha, a operadora fica com uma porcentagem. Se vende em plataforma de artesanato, a comissão é bem maior. Se paga frete para atrair a cliente, isso também sai de você.

Essas taxas incidem sobre o valor da venda, então precisam ser somadas depois, não antes.

Markup não é margem

Este ponto é técnico, mas vale muito a pena entender.

Quando você soma 30% ao custo, você não está ganhando 30% de lucro. Você está ganhando 30% sobre o custo, que resulta em cerca de 23% sobre o preço de venda.

Na tabela lá de cima: R$ 20,16 de lucro num preço de R$ 87,36 dá 23%.

Não está errado, só não é o que parece. Se você quer que 30% do que entra seja realmente seu, precisa multiplicar o custo por aproximadamente 1,43 em vez de 1,30.

A fórmula completa

Juntando tudo:

(Material + Hora + Custos indiretos) × Margem + Taxas de venda

Refazendo o sousplat com a conta completa:

ItemValor
Barbante (120 g)R$ 7,20
Hora (3 h × R$ 20)R$ 60,00
Custos indiretosR$ 10,00
Custo totalR$ 77,20
Margem de 30%R$ 23,16
SubtotalR$ 100,36
Taxa de cartão (4%)R$ 4,01
Preço finalR$ 104,37

Arredondando: R$ 105,00.

Compare com os R$ 89,00 da primeira conta. São R$ 16,00 de diferença por peça. Em quinze peças no mês, R$ 240,00 que estavam saindo do seu bolso sem você perceber.

Erros que eu já cometi

Baixar o preço quando a cliente hesita. Se você dá desconto na primeira negociação, você ensinou aquela cliente que o seu preço é negociável. Ela vai pedir desconto sempre.

Cobrar mais barato de conhecidos. Amiga e família são as encomendas que mais dão trabalho e menos dão retorno. Se quiser fazer um preço especial, faça mas saiba exatamente quanto está doando.

Não recalcular quando o barbante sobe. O fio aumenta e a peça continua com o preço do ano passado. Revise seus preços a cada seis meses, no mínimo.

Cobrar o mesmo por atacado e varejo. Se uma loja quer levar dez peças, o preço é outro mas ele precisa continuar cobrindo seus custos. Atacado com margem menor só faz sentido se o volume compensar.

Achar que uma peça mais bonita justifica cobrar no sentimento. Justifica cobrar mais, sim, mas por um motivo objetivo: ela levou mais tempo, ou usou material mais caro, ou exigiu uma técnica que poucas pessoas dominam. O preço precisa ter conta por trás.

Por onde começar hoje

Se você chegou até aqui e quer sair da leitura com algo pronto, faça nesta ordem:

  1. Pegue uma balança de cozinha e pese uma peça que você já vende.
  2. Calcule o preço por grama do barbante que usou.
  3. Defina o valor da sua hora com a conta de quanto quer ganhar ÷ horas produtivas.
  4. Cronometre a próxima peça que fizer.
  5. Some seus gastos do mês com embalagem, energia e material de apoio, e divida pelo número de peças.
  6. Refaça o preço de um único produto com a fórmula completa.

Comece por um produto só. Quando aquele número estiver certo, os outros ficam mais fáceis.

E se o preço que sair da conta te assustar um pouco, é sinal de que você estava cobrando pouco antes. Essa sensação passa, e vem junto com a percepção de que o seu trabalho vale exatamente o que a conta diz.


Você precifica de um jeito diferente? Me conta nos comentários ou lá no @calu_atelie, tenho curiosidade de saber como outras crocheteiras fazem essa conta.

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